quinta-feira, novembro 10, 2016

Unguentos

Pequena companhia,
haverá quem queira roer-te a líbido
só porque és gente.
Mas, tu, mantém-te livre sempre.
Só o prazer importa
e o que é o prazer senão aquilo que hidrata e nutre
até aos esconsos e alçapões do corpo e da mente -
a dicção do Allen Vega
o Nick Cave em palco
caranguejos confitados
Barca Velha
poesia erótica
e uma alma gémea.

quinta-feira, agosto 04, 2016

Detector de metais

Misery loves company
e tu acompanhas-me bem 
como o vinho o Inverno 
           o rádio o trânsito 
           o cigarro a noite.
Digo-te "E se só me restar este sofrimento?".
Digo-te "Sinto-me um pássaro
ao qual tiraram o ar dos ossos".
Dizes-me "Eu também".
Digo-te "Je ne suis qu'une poétesse faible,
pétasse. Putain,
le capital me porte dans ses carnivores de mains".
Dizes-me "Precisas de constância nos afectos".
Mas se a brisa cálida
             a cerveja gélida e
             o riso camarada
me acompanhassem sempre
talvez descartasse cumplicidades de almofada
talvez a minha descendência não tivesse de
suportar a minha boca pétrea 
                os meus olhos ruivos de férreos
                as minhas unhas incrustadas de verdete
talvez lhe desse tudo o que a ti te dou, minha vida,
que convocas tudo o que tenho
de mau e de bom.

Filha querida,
urge que percebas que
só fujo de mim
- deste eu esfacelado e químico
   deste eu desfigurado, delirante moderado
   deste eu trágico 
   ossos pneumáticos esvaziados
   olhos queimados
   sexo a um tempo sobrepovoado e deserto
   fome e sede cretáceos.



Para M.

terça-feira, julho 26, 2016

Maquia

Escusado negá-lo:
és calma calor conforto
alegras-me e
isso mesmo ditará o nosso fim.
Não sou da tranquilidade mas das estesias,
sou fragmentos.
Atento às fotografias e
ao negro escarpado infinito que as intervala
- solo de existência.

Se desobedecesses e contrariasses a parafernália dos costumes
copulando com todos os consensuais bípedes,
talvez me conservasses
- heterogeneamente unos,
incutiríamos mais discórdia no mundo
e nunca sentiríamos fome.

terça-feira, maio 31, 2016

Desenleio

Quando quero desmanchar um nó cego
desembainho um bloco imaculado e desvirgino-o.
Mas o melhor pente que possuo
é viver na casa que era tua.

deixaste um ar mais informado
talhado para a poesis.
As pontas dos meus dedos tornam-se instrumentos cirúrgicos
que amaciam e desembaraçam os mais emaranhados novelos de cabelo
- isto é, escrevo.
Mas ultimamente surpreendo-me
em busca das flores do teu terraço
que não estão onde moro.
Em sobressalto penso:
tenho de aliciar-te ao teu lar de antanho
convidar-te a passear sobre a velha tábua corrida
que acusa a ausência do teu passo,
das tuas plantas de carne e osso,
e por aqui exales um vapor de água teu oriundo que,
queira o Verbo,
retemperará estes ares
geradores de prestidigitadores.

Para a A. e o J-P.

terça-feira, abril 26, 2016

Caxemira

Findo o turismo nocturno,
entramos no bar do Arsenal
perguntamos
«Café, há? Então são
dois e dois
copos d’água.
Um euro e meio cada?»
têmporas coladas, soluçamos hilárias
«Água morna e suja a preço de cerveja gelada».
Sentadas, roemos a madrugada
a falar de 
familiares prazeres dores fome
com a sobriedade própria da precariedade
- nós, roedoras de bolotas
(quais comedores de batatas?).

Prometes que
quando ganhares o prémio da editora omnívora
voltaremos a este lugar
encomendarás uma bica uma meia-de-leite um café americano
pagarás com a nota violeta dispensando a demasia.

Regressamos a casa,
o Terreiro do Paço todo água gelada
a violenta lua nada
sangue por moeda de troca
parquímetros abundantes,
pelo que justo era sermos assaltantes.

segunda-feira, abril 04, 2016

e

Na terceira manhã
da terceira semana
do terceiro mês do ano
quando subia a Pascoal de Melo
vi a falecida melhor amiga
da minha mãe falecida.
Afligiu-me pensá-la
sem a sua companhia
- logo a minha mãe,
uma excelente solitária.
Vi no imenso volume do cabelo
grisalho sem tranças da Zulmira
uma nuvem diluviana
e chovi   logo de seguida.
Da mão pendia-lhe o mundo
num saco de plástico,
que não me recordo de vê-la sem carga.
Os pés não caminhavam sobre saltos,
o que sempre acontecia
mas as coisas já não eram as mesmas.
Logrei alcançar o meu bem-amado fantasma
ultrapassei-o silenciosa.
Era forçoso ver-lhe a cara
pelo que pus a minha à banda
para me deparar
nada mais  nada menos
do que com a da Adília.

quarta-feira, março 16, 2016

Filha febril

Adio a hora a que me deito
e já hibernas.
Antecipo o tempo de
moldares ao meu ventre os teus joelhos,
assentares nas minhas coxas
os teus pés pequenos e cálidos,
pousares-me nas faces as tuas mãos desenhadas
pela Josefa Ayala,
expirares sobre a minha boca
o teu hálito sem molares
suspirar-te a adoração que te tenho.
Prolongo a saudade só para ter mais dela
e menos horas até à alvorada
e assim ter de retardá-la.
Penso:
o teu pai sofre mais
porque nem o gato ronrona quando não estás.
Concluo:
não tenho gato.

Então enfrento a repulsa ao sono
que nos repara e alenta separadas
em terras com geografia plástica
deitadas sobre o mesmo lençol.

sexta-feira, março 11, 2016

c

O meio-dia corta a todo o comprimento
- nuca e nádegas tombam para trás
  cara e coxas para a frente.
As vísceras expostas primitivas
são anémonas decompostas
bairro de lata que exala salmoura
refeição verminosa macerada
de quem trabalha à jorna.

A morte nunca é prematura ou tardia.
Apenas seja todo do morrente
- indiviso  intacto  inspirado com exemplar comedimento -
o oxigénio nas suas cercanias.
Ninguém parasite a cabeceira
da carnal planta omnívora que,
preparada para devir semente,
nas pétalas pressente os passos
sobre o último vaso.

terça-feira, março 08, 2016

b

A família é um leviatã mesquinho e áspero.
Os homens são ditadores
as mulheres emudecem na hora grisalha.
Não que não ame mas convém-lhe o charme discreto da burguesia
o crapô e séries televisivas devoradas em salas de estar estanques.
Quem insistir na deserção do social-presídio
nada acolhedor e pré-requisitivo
terá de prescindir da franquia.
Rasgue-se a continuidade patriarcal gregária
resignada e desagregadora anímica.
Precipitemo-nos na greta da terra
sejamos espermatozoides
trinquemos um óvulo
medremos no ventre nocturno.

A minha linhagem é a dos amigos,
espécie marsupial atípica com cronologia aleatória
solitários com encontros marcados
- gestei-os e eles gestaram-me.
Temos sangue dourado e isso
nem os deuses.

quarta-feira, dezembro 09, 2015

5 anos

Há cinco anos, pelas 19 horas, a minha mãe morria. De súbito e de vez, sem falsos alarmes nem degradação lenta. Sei-o pelo que encontrei no local do óbito: computadores desligados, apenas a luz junto à saída acesa e uma única cadeira chegada atrás, a que ficava mais perto da porta. Nela posou, com atabalhoada urgência, o casaco e a mala para ir aos lavabos. Sei-o. Sabia-o durante os 45 minutos que passei de olhos presos à luz paralisada na frincha desde a ranhura da caixa do correio a aguardar a chegada da colega ao escritório, uma garagem térrea adaptada. Quando já não precisava de ser um envelope para franquear a porta e corri a libertar a luz arauta, vi-a contorcida sobre a cerâmica, olhos esbugalhados revirados, a boca num esgar de dentes partidos, um ânus de treva. A ela, a minha mãe. Percebi a intensidade da convulsão que a atravessou de uma ponta à outra e que tomou o seu tempo, quem sabe quantos segundos, minutos.
Até aí, o único horror que conheci foi o medo dos homens.

segunda-feira, junho 08, 2015

Violadores de Piauí

Os nossos corações de mercúrio
abominam os campos de Iaru,
os nossos falos repugnam conos
desde o vale ao delta do Nilo,

os dedos comem signos,
aniquilam fêmeas
mas deixam vestigia
até mãos alheias nos remeterem
à balança infalível da psicostasia.

terça-feira, outubro 21, 2014

Arcade

Despicable lover
but not for me
ever to play the role
of the outraged virgin.

I had rather say
there is nothing worthier
than the arcade you gaze
- bones gathered on the plate,
  greese and saliva all over the place.

segunda-feira, outubro 13, 2014

Aio

É ilusória a greve do palato.

Se não como mas recordo
o teu cheiro encarnado

o que importa a ausência
da seiva do jarro?


sexta-feira, setembro 05, 2014

Bijou

Existem coisas absolutamente correctas
como a dose de leite servida na Bijou
com o chá preto de saqueta.

Café que se preze é
mutatis mutandis
uma biblioteca.

quinta-feira, janeiro 09, 2014

paper

My liberty and self are
"There" - it started
But it really had to start
somewhere
Therefore why not
with graffiti or a pen?

Are we here or elsewhere
while I'm scribbling rubbish
on a bloody
piece of paper,
you stupid future
lover?


papel

A minha liberdade e eu somos
"Ali" - começou
se tinha de ser
assim, porque não
com grafite ou caneta?

Estamos aqui algures
enquanto rabisco lixo
num malfadado
pedaço de papel
meu estúpido futuro
amante?

domingo, dezembro 29, 2013

Espera de

Aqueles vocábulos chapearam-me
a prata. Sem lirismos deixaram-me
em chumbo blindada
com fechadura corroída
pelo verdete
quando água, e não
os meus próprios unguentos,
penetrou por dentro
a música alheia
tornada tormenta.

quarta-feira, dezembro 25, 2013

Lides

Nem nos sonhos
tolerarei engodos
camas de gato
ardis ou logros
que encerrem
como propósito
manter emoções
em andas.
Não existe música cujo ritmo acerte
em fracturantes danças
nem o equilíbrio deve ser desbaratado
em lides de funâmbula
quando se transporta uma celha
com a última água
e na mão esquerda
uma brasa um resquício de chama

É teu o meu regaço
sejas leopardo apoiado
sobre a carne
garras da pata dianteira
esgravatando-me o mamilo
debatendo-se por um esguicho
leitoso ou sanguíneo.
Tudo isto é leal
e inequívoco.

domingo, novembro 17, 2013

Desbravámos os trópicos.

Sobre os trilhos
deitámos os corpos
avaliando a temperatura
do solo
até ao cerne do mundo.

Estugámos o passo sem resposta
numa finisterra de geografia oculta.
Olhos nos olhos
concebemos novo cosmos
com a veleidade de gestar
um universo condicionado.
Saciámos chave e fechadura
a porta não se abriu
e o cosmos que criámos
é mais hermético que o nosso.

quarta-feira, novembro 13, 2013

Vértices

Não me cruzarei
contigo numa viela
Não trocaremos olhares
nem congeminarás,
para o meu itinerário,
trajectórias acidentadas
O sol vai tardar a nascer
e não dispensarei
um segundo de escuridão
nem um milímetro cúbico
de pele a ninguém.