sábado, agosto 04, 2012

obrigada

sonhei-te e despiste-me dos anos
devolveste-me o sofrimento,
um coração congestionado e palpitante,
pelo que te agradeço tanto
a insegurança
as gargalhadas
o formigueiro
e as cócegas na alma

quinta-feira, agosto 02, 2012

post it

murmuro o teu nome à orla
mergulho e abro bem os olhos
engulo a água salgada
entro no meu portal do tempo
e ele lava-me as mazelas
e escaras terrestres
o sol tornou-se vela tremeluzente
a invocação do teu toque
tornou tudo incandescente
cada molécula de água
esculpe a tua imagem nos recifes
para que saibas que sou tua

sexta-feira, julho 27, 2012

rubor invisível

hoje dei por mim:

- a caminhar encostada aos azulejos do metro
para que me arrefecessem a pele dos meus ombros
e, arrepios vítreos

- a tocar ao de leve com as plantas dos pés na erva
para que me fizesse cócegas frescas,
pois mais parecia que caminhara sobre piso em brasa

- a inspirar fundo o odor do centro de arte moderna,
que sempre adorei, e a contemplar, no bar,
as fatias douradas

- a monologar com patos (adultos e crias)

jurei:

- não esquecer nada

- resolver tudo

- ter calma

- percorrer um trajecto rectilíneo e seguro

cometi perjúrio.
devia estar mesmo muito encalorada.

agora

deserto de areia, não repetimos a cara
apenas a substância
não sabemos como somos
                     como seremos

aqui estamos e, por isso, agradecemos
agora

agora não

terça-feira, julho 24, 2012

anelar

se eu pudesse
morava neste quiosque
observava as árvores o tempo todo
e fumava cigarros sem parar
via os rapazes a passar
e as raparigas também
embebedava-me em cada noite do estio
depois de um ocaso verde

de noite, recebia-te,
meu amante

domingo, maio 13, 2012

Ribeira

Ribeira, eras o nosso bazar
As flores e as cabeças de peixe
com olhos vítreos fitando uma última recordação de mar
no Tejo
boca entreaberta
que procurava uma última golfada de ar
fugindo aterrorizado da ideia de se tornar carcaça
vermelho vivo sucumbindo atrás da prata das gélidas escamas
até se vir sobre a bancada
e a posta de pescada
do cliente incauto
que morreria de asca
se conhecesse estas vicissitudes
do peixe que, apetitoso,
lhe jaz agora no prato

quarta-feira, janeiro 04, 2012

Geronte

Aquelas folhas
no chão
pertencem àquela árvore
Folhas verdejantes na copa,
lá medram sem cópula
e no outono caem pelo chão
A árvore ensimesmada
esquece-se de que lá estão
As folhas são jovens
As árvores persistirão

sábado, outubro 29, 2011

Epifania

o horror do nada
ou o nada é que é o horror?

o mergulho na água,
mar sem princípio,
ilimitado,
e eterno cantor

os dedos do bebé
o riso de cristal
Maria Helena semi-submersa
nessa massa salgada
que é o oposto da terra

quarta-feira, dezembro 29, 2010

Contratempos

Sentimentos,
massa homogénea
de histeria e sal
lugares de ausência da ciência
onde nascem sangue, cores, relevos
que já nada têm de mental

Uma terra de tormenta
esquecida por Apolo
escarpa acima, escarpa a baixo
este corpo luta
nesta estrutura imaterial

Por mais estranho que pareça,
o debate faz sentido

quarta-feira, dezembro 22, 2010

Templo

o coração já não batia
mas o relógio ainda tiquetava
nesse dia em que envelheci vinte anos
de uma penada
enganada que fui
- ou que andava -
por um tempo
que me interrogo se será criança
ou um velho de barba

não questionei o valor da vida
das coisas
se somos realmente livres
felizes
não reclamei de nada

a lágrima, essa sim, rolava
pelo meu rosto sem atrito
provavelmente inexpressivo
que reflectia uma alma embebida em tristeza resignada