domingo, outubro 28, 2012

Aeroporto

Jardins com flores metálicas
voadoras e fálicas
com hangares quilométricos
        húngaros assimétricos
        britânicos pedantes
        germâncos rigorosos
        portugueses emigrantes
        gente lacrimejante
alguma de felicidade
outra pela antevisão da saudade
tudo mexe, mesmo na hora morta
tudo treme, nesta catedral da impermanência
Devia visitá-la com mais frequência

terça-feira, outubro 02, 2012

Xadrez

Chuva de outono
a que nos desabituámos,
tens uma música calmante
mas demasiado nostálgica
como o som do próprio tempo

porque o som das crianças à beira-mar
ou dos pés dando passos na areia
não nos leva a pensar em caveiras
nem no jogo de xadrez entre a morte e o jovem.

Quem joga xadrez no verão?

sábado, setembro 29, 2012

Mergulhemos

Quem disse que debruçarmo-nos sobre o papel
empunhando uma caneta
implica uma torrente de palavras
e de boa letra?
A maioria das combinações que tenho na frente
dava para encher uma estrumeira.
Mas se, porventura, pé ante pé,
pelas minhas costas,
de mim te acercasses e,
junto ao meu ouvido,
gentil e lento, soprasses
"Observa como são bonitas
as árvores",
se todos estes "ésses" sibilasses,
rebentaria em flor
ramos, vocábulos e mármores

Nos tempos silenciosos
com pouca feitiçaria e destreza,
penso tanto em ti
como na geração e na corrupção
como a água corre no rio.

Os meus ouvidos atentos
aguardam pelos teus silenciosos passos.

sábado, setembro 22, 2012

Tom

Mestre de cerimónias de plateias devotadas,
chegou com a trupe e os trapézios
mulheres suficientes para um triénio
música nas omoplatas
sapatos pretos bicudos
álcool e poeira mágica.
Num dos olhos trazia fogo
noutro água.

Em ambos vi o meu reflexo
e uma casa retorcida vazia

domingo, setembro 16, 2012

segunda-feira, setembro 03, 2012

Inês

O meu coração segue as contracções
de cada músculo teu.
Gostaria de fundir-me contigo,
saudade de quando éramos um corpo só.
Mas estamos obrigadas pela geração.

quinta-feira, agosto 23, 2012

miss

mar com saudade de lua
água sem vida
floresta deserta
ventre sem fruto
boca com sede
corpo com fome
alma sem mote
o barco quer a rede
transbordante de peixe

cresce
colhe-me da árvore
e mata-me
agora

sábado, agosto 11, 2012

alta pressão

se fitar esta calçada íngreme
que vai mergulhar no rio
confundir-me-ei com ele
à semelhança da cidade
e assim prestar tributo
às virtudes do tempo quente:
a fluidez macia
um peso ligeiro e perfumado
dança lenta
pescoço arqueado até à nuca
boca semiaberta
indiferente ao ar que sai e entra

quinta-feira, agosto 09, 2012

apneia

namoro-te em cada objecto com que me deparo
espreitas-me sobre o ombro quando me olho ao espelho
adivinho-te ao virar da esquina
ou oculto nesta e naquela sombra

leio-te em todas as páginas
de todos os livros, dicionários, enciclopédias,
periódicos sérios ou pasquins
tornaste-te o odor de cada prato que cozinho
para depois te comer
uma garfada após outra
e beber-te em goles de vinho

sinto-te tão meu
que és outro de mim

segunda-feira, agosto 06, 2012

tutela

de noite, adormeces-me no meu colo
afugento-te os pesadelos
limpo-te e alimento-te
beijo-te as feridas
ralho-te e perscruto-te sans césse
por isso pergunto
quem te protegerá de mim?
das minhas vagas
dos meus sonhos
das minhas paixões colossais
das minhas visões com cores garridas
quem te salvará do cativeiro maternal
e da minha essencial liberdade desgrenhada?