Catedral de cerveja e bifes
de lagostas em aquários
para nunca se lhes expirar o prazo
Independentemente do orçamento de estado,
a casa está sempre composta
Copos dourados e crepitantes
a carne é uma Cleópatra que nada em molho abundante
secundada por batatas fritas, esparregado e arroz
em pratos a montante
Como tudo isto seria mais vivo e saboroso
sob um olhar demiúrgico
Numa fracção de instante,
os lagostins fitar-se-iam
lagostas e sapateiras copulariam
as moreias moles e indolentas observariam
e as gambas, com minúsculas tenazes,
aplaudiriam,
as tentações de Santo Antão seriam nada
comparadas com a esquina vintecentista
desta movimentada avenida lisboeta
quarta-feira, novembro 21, 2012
domingo, outubro 28, 2012
Aeroporto
Jardins com flores metálicas
voadoras e fálicas
com hangares quilométricos
húngaros assimétricos
britânicos pedantes
germâncos rigorosos
portugueses emigrantes
gente lacrimejante
alguma de felicidade
outra pela antevisão da saudade
tudo mexe, mesmo na hora morta
tudo treme, nesta catedral da impermanência
Devia visitá-la com mais frequência
voadoras e fálicas
com hangares quilométricos
húngaros assimétricos
britânicos pedantes
germâncos rigorosos
portugueses emigrantes
gente lacrimejante
alguma de felicidade
outra pela antevisão da saudade
tudo mexe, mesmo na hora morta
tudo treme, nesta catedral da impermanência
Devia visitá-la com mais frequência
terça-feira, outubro 02, 2012
Xadrez
Chuva de outono
a que nos desabituámos,
tens uma música calmante
mas demasiado nostálgica
como o som do próprio tempo
porque o som das crianças à beira-mar
ou dos pés dando passos na areia
não nos leva a pensar em caveiras
nem no jogo de xadrez entre a morte e o jovem.
Quem joga xadrez no verão?
a que nos desabituámos,
tens uma música calmante
mas demasiado nostálgica
como o som do próprio tempo
porque o som das crianças à beira-mar
ou dos pés dando passos na areia
não nos leva a pensar em caveiras
nem no jogo de xadrez entre a morte e o jovem.
Quem joga xadrez no verão?
sábado, setembro 29, 2012
Mergulhemos
Quem disse que debruçarmo-nos sobre o papel
empunhando uma caneta
implica uma torrente de palavras
e de boa letra?
A maioria das combinações que tenho na frente
dava para encher uma estrumeira.
Mas se, porventura, pé ante pé,
pelas minhas costas,
de mim te acercasses e,
junto ao meu ouvido,
gentil e lento, soprasses
"Observa como são bonitas
as árvores",
se todos estes "ésses" sibilasses,
rebentaria em flor
ramos, vocábulos e mármores
Nos tempos silenciosos
com pouca feitiçaria e destreza,
penso tanto em ti
como na geração e na corrupção
como a água corre no rio.
Os meus ouvidos atentos
aguardam pelos teus silenciosos passos.
empunhando uma caneta
implica uma torrente de palavras
e de boa letra?
A maioria das combinações que tenho na frente
dava para encher uma estrumeira.
Mas se, porventura, pé ante pé,
pelas minhas costas,
de mim te acercasses e,
junto ao meu ouvido,
gentil e lento, soprasses
"Observa como são bonitas
as árvores",
se todos estes "ésses" sibilasses,
rebentaria em flor
ramos, vocábulos e mármores
Nos tempos silenciosos
com pouca feitiçaria e destreza,
penso tanto em ti
como na geração e na corrupção
como a água corre no rio.
Os meus ouvidos atentos
aguardam pelos teus silenciosos passos.
sábado, setembro 22, 2012
Tom
Mestre de cerimónias de plateias devotadas,
chegou com a trupe e os trapézios
mulheres suficientes para um triénio
música nas omoplatas
sapatos pretos bicudos
álcool e poeira mágica.
Num dos olhos trazia fogo
noutro água.
Em ambos vi o meu reflexo
e uma casa retorcida vazia
chegou com a trupe e os trapézios
mulheres suficientes para um triénio
música nas omoplatas
sapatos pretos bicudos
álcool e poeira mágica.
Num dos olhos trazia fogo
noutro água.
Em ambos vi o meu reflexo
e uma casa retorcida vazia
domingo, setembro 16, 2012
segunda-feira, setembro 03, 2012
Inês
O meu coração segue as contracções
de cada músculo teu.
de cada músculo teu.
Gostaria de fundir-me contigo,
saudade de quando éramos um corpo só.
Mas estamos obrigadas pela geração.
quinta-feira, agosto 23, 2012
miss
mar com saudade de lua
água sem vida
floresta deserta
ventre sem fruto
boca com sede
corpo com fome
alma sem mote
o barco quer a rede
transbordante de peixe
cresce
colhe-me da árvore
e mata-me
agora
água sem vida
floresta deserta
ventre sem fruto
boca com sede
corpo com fome
alma sem mote
o barco quer a rede
transbordante de peixe
cresce
colhe-me da árvore
e mata-me
agora
sábado, agosto 11, 2012
alta pressão
se fitar esta calçada íngreme
que vai mergulhar no rio
confundir-me-ei com ele
à semelhança da cidade
e assim prestar tributo
às virtudes do tempo quente:
a fluidez macia
um peso ligeiro e perfumado
dança lenta
pescoço arqueado até à nuca
boca semiaberta
indiferente ao ar que sai e entra
que vai mergulhar no rio
confundir-me-ei com ele
à semelhança da cidade
e assim prestar tributo
às virtudes do tempo quente:
a fluidez macia
um peso ligeiro e perfumado
dança lenta
pescoço arqueado até à nuca
boca semiaberta
indiferente ao ar que sai e entra
quinta-feira, agosto 09, 2012
apneia
namoro-te em cada objecto com que me deparo
espreitas-me sobre o ombro quando me olho ao espelho
adivinho-te ao virar da esquina
ou oculto nesta e naquela sombra
leio-te em todas as páginas
de todos os livros, dicionários, enciclopédias,
periódicos sérios ou pasquins
tornaste-te o odor de cada prato que cozinho
para depois te comer
uma garfada após outra
e beber-te em goles de vinho
sinto-te tão meu
que és outro de mim
espreitas-me sobre o ombro quando me olho ao espelho
adivinho-te ao virar da esquina
ou oculto nesta e naquela sombra
leio-te em todas as páginas
de todos os livros, dicionários, enciclopédias,
periódicos sérios ou pasquins
tornaste-te o odor de cada prato que cozinho
para depois te comer
uma garfada após outra
e beber-te em goles de vinho
sinto-te tão meu
que és outro de mim
Assinar:
Postagens (Atom)