domingo, janeiro 13, 2013

Branca

Partes com a lua
e deixas-me como ela
- nova, escondida,
sugando uma sombra autofágica
tremenda e irresistível -
interferindo com marés
boicotando partos

Também eu estou prenhe
- apenas oculto o ventre

sexta-feira, janeiro 11, 2013

Enciclopédia

O meu amor é a enciclopédia autista
que atravanca aquela prateleira,
desactualizada e desusada
só por ser enciclopédia

Aqui não há mais espaço,
só tempo. E daquele que é lento.

quinta-feira, dezembro 13, 2012

Ceux qui sont devenus (assez) timides


Comme une libélule ou une abeille folle,
je te cherche partout
et ce qui est désarmant
c’est que je te trouve,
ne t’en trouvant absolument pas,
dans ces bâtiments battues,
corrompus, avec du ciment qui abandonne
en miettes les murs que mes yeux ont,
eux mêmes, laissé tomber par terre
tel qu’une créature niobesque.
Le sol en boi imprégné de larves,
chacune fait des petits trous
pour boir mes chaudes larmes et mon nord perdu.
Cependent, je deviens vide et grotesque.
Mon âme pourri, il ne reste plus q’une bête urbanesque, désoeuvrée.
Comme la libélule, elles me manquent, les quenouilles. 

quarta-feira, novembro 21, 2012

Cervejaria

Catedral de cerveja e bifes
de lagostas em aquários
para nunca se lhes expirar o prazo
Independentemente do orçamento de estado,
a casa está sempre composta

Copos dourados e crepitantes
a carne é uma Cleópatra que nada em molho abundante
secundada por batatas fritas, esparregado e arroz
em pratos a montante

Como tudo isto seria mais vivo e saboroso
sob um olhar demiúrgico
Numa fracção de instante,
os lagostins fitar-se-iam
lagostas e sapateiras copulariam
as moreias moles e indolentas observariam
e as gambas, com minúsculas tenazes,
aplaudiriam,
as tentações de Santo Antão seriam nada
comparadas com a esquina vintecentista
desta movimentada avenida lisboeta

domingo, outubro 28, 2012

Aeroporto

Jardins com flores metálicas
voadoras e fálicas
com hangares quilométricos
        húngaros assimétricos
        britânicos pedantes
        germâncos rigorosos
        portugueses emigrantes
        gente lacrimejante
alguma de felicidade
outra pela antevisão da saudade
tudo mexe, mesmo na hora morta
tudo treme, nesta catedral da impermanência
Devia visitá-la com mais frequência

terça-feira, outubro 02, 2012

Xadrez

Chuva de outono
a que nos desabituámos,
tens uma música calmante
mas demasiado nostálgica
como o som do próprio tempo

porque o som das crianças à beira-mar
ou dos pés dando passos na areia
não nos leva a pensar em caveiras
nem no jogo de xadrez entre a morte e o jovem.

Quem joga xadrez no verão?

sábado, setembro 29, 2012

Mergulhemos

Quem disse que debruçarmo-nos sobre o papel
empunhando uma caneta
implica uma torrente de palavras
e de boa letra?
A maioria das combinações que tenho na frente
dava para encher uma estrumeira.
Mas se, porventura, pé ante pé,
pelas minhas costas,
de mim te acercasses e,
junto ao meu ouvido,
gentil e lento, soprasses
"Observa como são bonitas
as árvores",
se todos estes "ésses" sibilasses,
rebentaria em flor
ramos, vocábulos e mármores

Nos tempos silenciosos
com pouca feitiçaria e destreza,
penso tanto em ti
como na geração e na corrupção
como a água corre no rio.

Os meus ouvidos atentos
aguardam pelos teus silenciosos passos.

sábado, setembro 22, 2012

Tom

Mestre de cerimónias de plateias devotadas,
chegou com a trupe e os trapézios
mulheres suficientes para um triénio
música nas omoplatas
sapatos pretos bicudos
álcool e poeira mágica.
Num dos olhos trazia fogo
noutro água.

Em ambos vi o meu reflexo
e uma casa retorcida vazia

domingo, setembro 16, 2012

segunda-feira, setembro 03, 2012

Inês

O meu coração segue as contracções
de cada músculo teu.
Gostaria de fundir-me contigo,
saudade de quando éramos um corpo só.
Mas estamos obrigadas pela geração.