quinta-feira, março 07, 2013

Henriques

O molusco rubro
suspirava por obscenidades de escriba
perpetradas pelos homónimos patifes
"Henrique... Henriques..."

Audaz, humedeceu as páginas
de bem vinte volumes
exposto à luz do lustre

Todas aquelas fêmeas trespassadas
pelos dois bêbedos gloriosos
(quase de certeza impotentes)
foram-no por sombras e vocábulos,
pelo genioglosso e pela caneta
e devem ter saído dali inflamadas
mas muito mal servidas

Ainda assim, passado meio século,
o molusco molhado empapa páginas
de tomos transatlânticos
cheios de palavreado.

segunda-feira, fevereiro 25, 2013

Scratch


My poems are born in sketch books
because sketches is what they are –
poor little scratches, insignificant traces
of cafés, coffee, black tea and lard.
My slightly bloody words
are little sentimental wounds
of a useless and fertile womb
which will carry no more
and because of that it sometimes whines
                                 sometimes even sobs
rebelling against its desolate destiny.

Singular and occasional drops of water
in a country drowning in sunlight
all the longing
blood craving for iron
what was never meant to be.

sábado, fevereiro 16, 2013

Tea and martini


“It isn’t popular or safe
to say I love him”,
I heared someone saying
while feeling the touch
of the moon,
which was white
and ever so glittery

As in a nocturne day-dream,
a fat and plumy space grew
unannounced
between me and I
No longer you and I
- just that odd space
in an inner midland
and you were within.

I don’t know if it is the moonlight
Tom Waits’ voice, this broken city
or just plain good old wine fooling,
but it strikes me as if
I am a person of extreme beauty
sitting with you in this crowded and noisy parlour
silently drinking tea and martini.

The present is whole forever.
The future isn’t meant to be.

terça-feira, fevereiro 12, 2013

Anoitecer

Absorvo a escassa luz do sol
que se despede, adormece
e me tornou fluorescente.
Sou os ponteiros do despertador,
pirilampos até de manhã.
Planta na fotossíntese,
quero todo o oxigénio
meu de direito
comer, beber
ser fecunda no meu leito.
Tu anoiteces-me.

sábado, fevereiro 02, 2013

Quarto minguante

Expulsas e exiges o meu corpo
de baixa voltagem,
neuronal e onírico,
o código e o códice,
o desenho da caligrafia,
o caracter.
Acossa-me o teu convite
sem prazo de validade,
feixe de paradoxos.
Vou vingar-me no papel,
sujá-lo com obscenidades, gatafunhos,
grãos de açúcar e cadáveres de formigas,
rasgar estas folhas ao meio, mascar-lhes os cantos,
queimá-las com chá a ferver e, depois de secas,
incendiá-las como Jeanne d'Arc
Lamenta-as, bispo de Beauvais,
- foste tu quem ditou a sorte
dos virgens rectângulos
Quando terminarem as folhas,
passarei ao tecido que me envolve
membros e torso.
Não envergarei
nada sobre a pele
além dos vergões da revolta.

sexta-feira, janeiro 18, 2013

dança

A minha mama nada na tua mão,
o meu abdómen queima,
as minhas mãos encharcam a sumaúma,
as fibras que, apertadas, pingavam
agora escorrem um lençol de água.
Cada milímetro da tua pele odeia-me,
cada pêlo meu toca-te como se fosse eu inteira.

Rasga estas páginas e amachuca-as,
esvazia a garrafa até ao fundo,
sorve o cigarro até à queimadura.
Dança.

quinta-feira, janeiro 17, 2013

cardápio



Se homem ou mulher
é muito mais do que se deve revelar.
Seja qual for a resposta,
o mais provável é ser falsa.
Trapézio que balança rápido
ouriço de barriga tenra e picos inúteis
copo de vinho tinto limpo
pincel de marta
malha de pura lã virgem
aguardente velha
bife do lombo cru
poema norte-americano
prosa nipónica
corpo estirado sobre a mesa
marquesa
cerveja irlandesa preta
ovo estrelado
noutros tempos, cigarros
lápis fanado no Ikea
blocos de papel com boa gramagem

domingo, janeiro 13, 2013

Branca

Partes com a lua
e deixas-me como ela
- nova, escondida,
sugando uma sombra autofágica
tremenda e irresistível -
interferindo com marés
boicotando partos

Também eu estou prenhe
- apenas oculto o ventre

sexta-feira, janeiro 11, 2013

Enciclopédia

O meu amor é a enciclopédia autista
que atravanca aquela prateleira,
desactualizada e desusada
só por ser enciclopédia

Aqui não há mais espaço,
só tempo. E daquele que é lento.

quinta-feira, dezembro 13, 2012

Ceux qui sont devenus (assez) timides


Comme une libélule ou une abeille folle,
je te cherche partout
et ce qui est désarmant
c’est que je te trouve,
ne t’en trouvant absolument pas,
dans ces bâtiments battues,
corrompus, avec du ciment qui abandonne
en miettes les murs que mes yeux ont,
eux mêmes, laissé tomber par terre
tel qu’une créature niobesque.
Le sol en boi imprégné de larves,
chacune fait des petits trous
pour boir mes chaudes larmes et mon nord perdu.
Cependent, je deviens vide et grotesque.
Mon âme pourri, il ne reste plus q’une bête urbanesque, désoeuvrée.
Comme la libélule, elles me manquent, les quenouilles. 

quarta-feira, novembro 21, 2012

Cervejaria

Catedral de cerveja e bifes
de lagostas em aquários
para nunca se lhes expirar o prazo
Independentemente do orçamento de estado,
a casa está sempre composta

Copos dourados e crepitantes
a carne é uma Cleópatra que nada em molho abundante
secundada por batatas fritas, esparregado e arroz
em pratos a montante

Como tudo isto seria mais vivo e saboroso
sob um olhar demiúrgico
Numa fracção de instante,
os lagostins fitar-se-iam
lagostas e sapateiras copulariam
as moreias moles e indolentas observariam
e as gambas, com minúsculas tenazes,
aplaudiriam,
as tentações de Santo Antão seriam nada
comparadas com a esquina vintecentista
desta movimentada avenida lisboeta

domingo, outubro 28, 2012

Aeroporto

Jardins com flores metálicas
voadoras e fálicas
com hangares quilométricos
        húngaros assimétricos
        britânicos pedantes
        germâncos rigorosos
        portugueses emigrantes
        gente lacrimejante
alguma de felicidade
outra pela antevisão da saudade
tudo mexe, mesmo na hora morta
tudo treme, nesta catedral da impermanência
Devia visitá-la com mais frequência

terça-feira, outubro 02, 2012

Xadrez

Chuva de outono
a que nos desabituámos,
tens uma música calmante
mas demasiado nostálgica
como o som do próprio tempo

porque o som das crianças à beira-mar
ou dos pés dando passos na areia
não nos leva a pensar em caveiras
nem no jogo de xadrez entre a morte e o jovem.

Quem joga xadrez no verão?

sábado, setembro 29, 2012

Mergulhemos

Quem disse que debruçarmo-nos sobre o papel
empunhando uma caneta
implica uma torrente de palavras
e de boa letra?
A maioria das combinações que tenho na frente
dava para encher uma estrumeira.
Mas se, porventura, pé ante pé,
pelas minhas costas,
de mim te acercasses e,
junto ao meu ouvido,
gentil e lento, soprasses
"Observa como são bonitas
as árvores",
se todos estes "ésses" sibilasses,
rebentaria em flor
ramos, vocábulos e mármores

Nos tempos silenciosos
com pouca feitiçaria e destreza,
penso tanto em ti
como na geração e na corrupção
como a água corre no rio.

Os meus ouvidos atentos
aguardam pelos teus silenciosos passos.

sábado, setembro 22, 2012

Tom

Mestre de cerimónias de plateias devotadas,
chegou com a trupe e os trapézios
mulheres suficientes para um triénio
música nas omoplatas
sapatos pretos bicudos
álcool e poeira mágica.
Num dos olhos trazia fogo
noutro água.

Em ambos vi o meu reflexo
e uma casa retorcida vazia

domingo, setembro 16, 2012

segunda-feira, setembro 03, 2012

Inês

O meu coração segue as contracções
de cada músculo teu.
Gostaria de fundir-me contigo,
saudade de quando éramos um corpo só.
Mas estamos obrigadas pela geração.

quinta-feira, agosto 23, 2012

miss

mar com saudade de lua
água sem vida
floresta deserta
ventre sem fruto
boca com sede
corpo com fome
alma sem mote
o barco quer a rede
transbordante de peixe

cresce
colhe-me da árvore
e mata-me
agora

sábado, agosto 11, 2012

alta pressão

se fitar esta calçada íngreme
que vai mergulhar no rio
confundir-me-ei com ele
à semelhança da cidade
e assim prestar tributo
às virtudes do tempo quente:
a fluidez macia
um peso ligeiro e perfumado
dança lenta
pescoço arqueado até à nuca
boca semiaberta
indiferente ao ar que sai e entra

quinta-feira, agosto 09, 2012

apneia

namoro-te em cada objecto com que me deparo
espreitas-me sobre o ombro quando me olho ao espelho
adivinho-te ao virar da esquina
ou oculto nesta e naquela sombra

leio-te em todas as páginas
de todos os livros, dicionários, enciclopédias,
periódicos sérios ou pasquins
tornaste-te o odor de cada prato que cozinho
para depois te comer
uma garfada após outra
e beber-te em goles de vinho

sinto-te tão meu
que és outro de mim