sábado, março 23, 2013

Copperfields



Daqui a nada, festa –
cheiros, braços, pernas,
dentes arreganhados
cabelos cuidados
despromovidos a desgrenhados
num país açaimado
por um anjo retrógrado
que não se recusa a derrubar pela segunda vez
o muro de Berlim

Somos Arquimedes, Houdinis,
os David Copperfields de Dickens
que comem mar, sol,
iguarias bem mais tenras que metal.

quarta-feira, março 20, 2013

O lobo e o colibri

Nem cumprindo o trajecto inverso
poderia esquecer a nudez
que imperava sobre o nosso encontro.
Embebida de rituais de intersecção
tornou complexo e escrúpulo
os nossos corpos um no outro,
quando outrora morremos na boca
e tudo isso era puro.

Por mais que escale cavidades dentárias
não hei-de alcançar a ponta da tua língua.

sexta-feira, março 15, 2013

Analogia

Dispenso relógios, ábacos
aventais e emulsões
inspiro até as flores murcharem
crianças e velhos desmaiarem.
Sou fome-sede de mil anos
e cresço
Dêem-me rios de tinta
que a destilarei como um polvo
sobre papiro.

quarta-feira, março 13, 2013

Asas

Esta coisa das palavras
que querem ser agarradas
apalpadas, saias levantadas
e agora nada

querem ser escritasditasdifundidas
mas afinal são todas tímidas,
tornou-se demasiado familiar

São pássaros
sem radícula nem grilhão
beleza ambulacrária
oriunda de uma anatomia tropical
- boca, genitais, mão -
que enrolam tantas linhas coloridas
em torno do meu pescoço
que me degolam
como a uma galinha.

segunda-feira, março 11, 2013

Relento

Quando a água é boa
o repasto sacia
e o café reconforta
à sombra de centenas de páginas densas
ampliadas por bom vidro
equacionamos a possibilidade de esta dimensão ser única
e soberana
e isto deve ser bem assim
O prazer dos sentidos é de uma tal magnitude
(os olhos pestanejam húmidos
os músculos distendem-se
braços e pernas ganham pêlos sussurrantes
orifícios ululantes
dedos: sosseguem, não estejam tão tamborilantes
ossos recalcificados
pulmões purificados
rins lavados
linfa totalmente drenada
sangue oxigenado)
que o próprio físico forja uma nova física imaterial
e chama-lhe metafísica
Mas não preciso de mais nenhuma

O meu clitóris é um sonar exposto ao branco luar relento
mas o calor faria um cego crer estar sob um sol de Julho

quinta-feira, março 07, 2013

Henriques

O molusco rubro
suspirava por obscenidades de escriba
perpetradas pelos homónimos patifes
"Henrique... Henriques..."

Audaz, humedeceu as páginas
de bem vinte volumes
exposto à luz do lustre

Todas aquelas fêmeas trespassadas
pelos dois bêbedos gloriosos
(quase de certeza impotentes)
foram-no por sombras e vocábulos,
pelo genioglosso e pela caneta
e devem ter saído dali inflamadas
mas muito mal servidas

Ainda assim, passado meio século,
o molusco molhado empapa páginas
de tomos transatlânticos
cheios de palavreado.

segunda-feira, fevereiro 25, 2013

Scratch


My poems are born in sketch books
because sketches is what they are –
poor little scratches, insignificant traces
of cafés, coffee, black tea and lard.
My slightly bloody words
are little sentimental wounds
of a useless and fertile womb
which will carry no more
and because of that it sometimes whines
                                 sometimes even sobs
rebelling against its desolate destiny.

Singular and occasional drops of water
in a country drowning in sunlight
all the longing
blood craving for iron
what was never meant to be.

sábado, fevereiro 16, 2013

Tea and martini


“It isn’t popular or safe
to say I love him”,
I heared someone saying
while feeling the touch
of the moon,
which was white
and ever so glittery

As in a nocturne day-dream,
a fat and plumy space grew
unannounced
between me and I
No longer you and I
- just that odd space
in an inner midland
and you were within.

I don’t know if it is the moonlight
Tom Waits’ voice, this broken city
or just plain good old wine fooling,
but it strikes me as if
I am a person of extreme beauty
sitting with you in this crowded and noisy parlour
silently drinking tea and martini.

The present is whole forever.
The future isn’t meant to be.

terça-feira, fevereiro 12, 2013

Anoitecer

Absorvo a escassa luz do sol
que se despede, adormece
e me tornou fluorescente.
Sou os ponteiros do despertador,
pirilampos até de manhã.
Planta na fotossíntese,
quero todo o oxigénio
meu de direito
comer, beber
ser fecunda no meu leito.
Tu anoiteces-me.