segunda-feira, julho 01, 2013

Chão

Amarelas, rolam pelo chão.

Parecem mimosas
mas não são.
Deveriam cheirar como tal
mas não.

Quando a alopécia dos jacarandás
fixa as solas ao solo,
eis que aparecem, mimosas,
as flores amarelas incógnitas,
definindo toda a leveza
salvando-nos da decomposição
e da seiva que, neste caso,
não gera nem alimenta,
apenas nos alicerça.

segunda-feira, junho 03, 2013

Nick Cave

Toca piano
excreta licor salino e saliva
canta sexo, amores perdidos, homicídios.

Finda a liturgia, parte -
o rosto orvalhado
quatro botões desabotoados
o queixo levantado.
Cobriu-nos com tal vigor
que estamos marianamente grávidos.

sexta-feira, maio 24, 2013

Olympus

Carver,
I do love Bukowski
and Miller
and Sylvia and Nin,
but tomorrow
you will be the one
whispering in my ear,
playing me
as if I were
(and I am)
your little violin.

quarta-feira, maio 22, 2013

Protocolo

É bom receber um sorriso franco, caloroso, sincero,
proposições precedidas por modestos "por favor",
seguidas desse moderato cantabile que é um "obrigado",
proferidas em voz baixa e com dicção pausada
Quão mais macio é o quotidiano
quando perpassado de polidez e gentileza.

Pelo que me pergunto por que teimo
em ser uma pessoa tão bruta,
arremessando farpas e destilando acrimónia?

domingo, maio 19, 2013

Um

Um último pedido,
um abraço franco
de prolongado eterno
um abraço fraterno
mas também amante
um abraço com vagas,
ora laço apertado,
ora apertadíssimo.
Um abraço de seres fundidos
que exilasse as dores
da perda de entes queridos,
que os recolocasse na vida
mesmo que se fossem logo de seguida.
Um abraço quente e salvífico.

sexta-feira, maio 10, 2013

Florzinha

O teu peito sonolento é uma frésia no verão
exposta ao suavíssimo vento

sobe e desce lentamente
perfuma todo o ar do mundo
e arrebata os mais recônditos recantos de mim
que sou em ti

quinta-feira, maio 02, 2013

Feijão

Vejo este navio na doca de Sta. Apolónia
e penso “é numa coisa destas que vais navegar,
não numa qualquer nau Catrineta,
em ruínas, obsoleta,
votada a ratos, avitaminoses e pragas,
que dessas já houve o que basta.
É numa coisa destas que tens de fazer uma viagem.
Nela não andarás nauseada
e banhar-te-ás em quatro piscinas:
uma ao sol, com bom cinema projectado no seu fundo
de água transparente coberto
e um portentoso bar de vinhos da nossa safra
magicamente suspenso sobre a mesma.
A outra também está descoberta, mas à sombra.
Aí ouvirás música clássica
enquanto devoras sobremesa atrás de sobremesa,
perfumada pelo cheiro do açúcar que carameliza sobre a custarda
É verdade que esta piscina está rodeada de colunas pseudo-bizantinas douradas. Paciência – bem sabes como é apanágio,
nos navios de cruzeiro, haver piroseira.
A terceira é interior, a sua água liberta um luxuriante vapor
com odor cítrico fresco que tudo irá recompor
A quarta é a minha preferida, também está aquecida
e lá decorre uma festa de arromba
com champagne, big band,
livros cujo papel resiste magicamente à água,
e abundam as tuas iguarias preferidas:
queijos, salgadinhos em miniatura,
bolo de morango da Avenida de Roma, gelados italianos
bifes suculentos, batatas fritas belgas ainda a escaldar
e estupidamente estaladiças.
Rimos à gargalhada, dizemos piadas sádicas
politicamente inaceitáveis e descabidas,
entregamo-nos à cretinice e não pedimos desculpa
- não há escrúpulos nem culpas.
Será a sala da Nossa Senhora do Paninho
embalada pelo doce balanço das ondas”

domingo, abril 28, 2013

Seiva

O sangue foge-me das veias
Observei a minha própria sepultura
e não estava vazia – já me continha
Alargo agora os elásticos constritivos da minha biografia,
descalço uma e depois outra meia
distraio a flora podal com os veios da madeira
pensando ”também através deles já correu seiva
como corre nos cactos que só contemplam areia"
Tudo parece perpassado e embebido de verdadejustiça.

terça-feira, abril 23, 2013

Animismo

Olho as coisas
através da película
da tela
da celulose fétida prensada
dos artefactos que me parecem
sempre animados e gesticulantes
- toco-as com um arranha-céus de vidro
de permeio.

Da lua do sol da terra,
onde me deito
para beijar os antípodas,
do cimento
do momento nómada
e inclemente,
periclitantes inteiros.
Os acordes são profusos
há luzes, gente bem-falante
e eu de caneta em punho
escrevente, extravagante,
informe e algo delirante.

Imóvel serei: película, tela, papel,
arranha-céus de vidro, lua, sol,
terra, cimento,
caneta no punho
delirante.

quinta-feira, abril 18, 2013

Desinteresse



Se te disser que não escrevo mais uma linha,
nem faço mais um desenho em fonemas
sem ser ungida pela água benta
que escorre da tua boca
por entre as tuas pernas,
espessa,
se a tua pena não titubear
uma ou outra letra?

Algures a montante do meu horizonte
existirá uma droga inspiradora
apesar da tua apatia,
um vocábulo que corra por mim acima
sem que eu sonhe com a tua risa,
um mundo onde não sejas
mão-de-obra e matéria-prima,
um não-lugar hipotético e patético
onde simplesmente inexistas
e que, por isso mesmo,
me desinteressa.

Algures uma sede que pode ser saciada
            uma mancha que pode ser apagada
            uma fome que pode ser satisfeita
            uma voz passível de ser silenciada.
Nenhuma será minha.

domingo, abril 14, 2013

Tricot

A verdade é-me oferecida
pelos artistas que a talham.
Leio-a tricotada por mim
em camisolas de poucas filas,
pequenas, condensadas,
com pontos caídos,
feitas de fios roídos pelas
traças, cores mescladas,
remates imperfeitos,
isentos de mentiras.

Deus é malha.

sábado, abril 06, 2013

Um Verão



Mergulho no oceano
carne de Marte
devotamente crua

Asteroideu com centos
de minúsculos dedos,
trepa lento
afugenta-me os medos
entra por mim
e descobre outros
oceano e lua em Minos

domingo, março 31, 2013

Templos

No dia em que todas as agendas do ocidente referem
o Filho do Homem,
o domingo em que regressou
depois de, sexta-feira, ter morrido na cruz,
nada mais nada menos do que "por nós",
só me lembro de ti, que morreste pela mesma morte,
deixando dois templos que não têm alternativa a adorar-te,
dois mausoléus de matéria orgânica e costas viradas,
capela mortuária com capela mortuária,
cultos belicosos da mesma entidade,
dois seres ignominiosos e antagónicos
que não te fazem justiça,
tal como catolicismo e ortodoxia
não fazem jus ao Cristo
e menos ainda a Maria.

sexta-feira, março 29, 2013

Biologia

A janela agiganta-se quando penetras na esquadria
abre-se de par em par sobre o teu colo primaveril
a rebentar de potenciais crianças,
azedas amarelas e aromáticas.
O caule dilata-se até ao teu pescoço agasalhado
irrigado pelo ouro fundido que reflui
de regresso ao bairro calcetado e bifurcado.

Os sentimentos microbianos foram erradicados
ou ter-se-ão ampliado?

sábado, março 23, 2013

Copperfields



Daqui a nada, festa –
cheiros, braços, pernas,
dentes arreganhados
cabelos cuidados
despromovidos a desgrenhados
num país açaimado
por um anjo retrógrado
que não se recusa a derrubar pela segunda vez
o muro de Berlim

Somos Arquimedes, Houdinis,
os David Copperfields de Dickens
que comem mar, sol,
iguarias bem mais tenras que metal.

quarta-feira, março 20, 2013

O lobo e o colibri

Nem cumprindo o trajecto inverso
poderia esquecer a nudez
que imperava sobre o nosso encontro.
Embebida de rituais de intersecção
tornou complexo e escrúpulo
os nossos corpos um no outro,
quando outrora morremos na boca
e tudo isso era puro.

Por mais que escale cavidades dentárias
não hei-de alcançar a ponta da tua língua.

sexta-feira, março 15, 2013

Analogia

Dispenso relógios, ábacos
aventais e emulsões
inspiro até as flores murcharem
crianças e velhos desmaiarem.
Sou fome-sede de mil anos
e cresço
Dêem-me rios de tinta
que a destilarei como um polvo
sobre papiro.

quarta-feira, março 13, 2013

Asas

Esta coisa das palavras
que querem ser agarradas
apalpadas, saias levantadas
e agora nada

querem ser escritasditasdifundidas
mas afinal são todas tímidas,
tornou-se demasiado familiar

São pássaros
sem radícula nem grilhão
beleza ambulacrária
oriunda de uma anatomia tropical
- boca, genitais, mão -
que enrolam tantas linhas coloridas
em torno do meu pescoço
que me degolam
como a uma galinha.

segunda-feira, março 11, 2013

Relento

Quando a água é boa
o repasto sacia
e o café reconforta
à sombra de centenas de páginas densas
ampliadas por bom vidro
equacionamos a possibilidade de esta dimensão ser única
e soberana
e isto deve ser bem assim
O prazer dos sentidos é de uma tal magnitude
(os olhos pestanejam húmidos
os músculos distendem-se
braços e pernas ganham pêlos sussurrantes
orifícios ululantes
dedos: sosseguem, não estejam tão tamborilantes
ossos recalcificados
pulmões purificados
rins lavados
linfa totalmente drenada
sangue oxigenado)
que o próprio físico forja uma nova física imaterial
e chama-lhe metafísica
Mas não preciso de mais nenhuma

O meu clitóris é um sonar exposto ao branco luar relento
mas o calor faria um cego crer estar sob um sol de Julho