segunda-feira, julho 08, 2013

Madalena

Saudade apertada
como um abraço no vazio
auto constritivo
resignação complacente
contristada
incógnita sem x
x que não era incógnita
que tinha massa,
volume, corpo, forma,
cabelo brilhante,
pele imaculada
carácter ebúrneo
x que cintilava
que já não é x.
Memória insolúvel.

segunda-feira, julho 01, 2013

Chão

Amarelas, rolam pelo chão.

Parecem mimosas
mas não são.
Deveriam cheirar como tal
mas não.

Quando a alopécia dos jacarandás
fixa as solas ao solo,
eis que aparecem, mimosas,
as flores amarelas incógnitas,
definindo toda a leveza
salvando-nos da decomposição
e da seiva que, neste caso,
não gera nem alimenta,
apenas nos alicerça.

segunda-feira, junho 03, 2013

Nick Cave

Toca piano
excreta licor salino e saliva
canta sexo, amores perdidos, homicídios.

Finda a liturgia, parte -
o rosto orvalhado
quatro botões desabotoados
o queixo levantado.
Cobriu-nos com tal vigor
que estamos marianamente grávidos.

sexta-feira, maio 24, 2013

Olympus

Carver,
I do love Bukowski
and Miller
and Sylvia and Nin,
but tomorrow
you will be the one
whispering in my ear,
playing me
as if I were
(and I am)
your little violin.

quarta-feira, maio 22, 2013

Protocolo

É bom receber um sorriso franco, caloroso, sincero,
proposições precedidas por modestos "por favor",
seguidas desse moderato cantabile que é um "obrigado",
proferidas em voz baixa e com dicção pausada
Quão mais macio é o quotidiano
quando perpassado de polidez e gentileza.

Pelo que me pergunto por que teimo
em ser uma pessoa tão bruta,
arremessando farpas e destilando acrimónia?

domingo, maio 19, 2013

Um

Um último pedido,
um abraço franco
de prolongado eterno
um abraço fraterno
mas também amante
um abraço com vagas,
ora laço apertado,
ora apertadíssimo.
Um abraço de seres fundidos
que exilasse as dores
da perda de entes queridos,
que os recolocasse na vida
mesmo que se fossem logo de seguida.
Um abraço quente e salvífico.

sexta-feira, maio 10, 2013

Florzinha

O teu peito sonolento é uma frésia no verão
exposta ao suavíssimo vento

sobe e desce lentamente
perfuma todo o ar do mundo
e arrebata os mais recônditos recantos de mim
que sou em ti

quinta-feira, maio 02, 2013

Feijão

Vejo este navio na doca de Sta. Apolónia
e penso “é numa coisa destas que vais navegar,
não numa qualquer nau Catrineta,
em ruínas, obsoleta,
votada a ratos, avitaminoses e pragas,
que dessas já houve o que basta.
É numa coisa destas que tens de fazer uma viagem.
Nela não andarás nauseada
e banhar-te-ás em quatro piscinas:
uma ao sol, com bom cinema projectado no seu fundo
de água transparente coberto
e um portentoso bar de vinhos da nossa safra
magicamente suspenso sobre a mesma.
A outra também está descoberta, mas à sombra.
Aí ouvirás música clássica
enquanto devoras sobremesa atrás de sobremesa,
perfumada pelo cheiro do açúcar que carameliza sobre a custarda
É verdade que esta piscina está rodeada de colunas pseudo-bizantinas douradas. Paciência – bem sabes como é apanágio,
nos navios de cruzeiro, haver piroseira.
A terceira é interior, a sua água liberta um luxuriante vapor
com odor cítrico fresco que tudo irá recompor
A quarta é a minha preferida, também está aquecida
e lá decorre uma festa de arromba
com champagne, big band,
livros cujo papel resiste magicamente à água,
e abundam as tuas iguarias preferidas:
queijos, salgadinhos em miniatura,
bolo de morango da Avenida de Roma, gelados italianos
bifes suculentos, batatas fritas belgas ainda a escaldar
e estupidamente estaladiças.
Rimos à gargalhada, dizemos piadas sádicas
politicamente inaceitáveis e descabidas,
entregamo-nos à cretinice e não pedimos desculpa
- não há escrúpulos nem culpas.
Será a sala da Nossa Senhora do Paninho
embalada pelo doce balanço das ondas”

domingo, abril 28, 2013

Seiva

O sangue foge-me das veias
Observei a minha própria sepultura
e não estava vazia – já me continha
Alargo agora os elásticos constritivos da minha biografia,
descalço uma e depois outra meia
distraio a flora podal com os veios da madeira
pensando ”também através deles já correu seiva
como corre nos cactos que só contemplam areia"
Tudo parece perpassado e embebido de verdadejustiça.

terça-feira, abril 23, 2013

Animismo

Olho as coisas
através da película
da tela
da celulose fétida prensada
dos artefactos que me parecem
sempre animados e gesticulantes
- toco-as com um arranha-céus de vidro
de permeio.

Da lua do sol da terra,
onde me deito
para beijar os antípodas,
do cimento
do momento nómada
e inclemente,
periclitantes inteiros.
Os acordes são profusos
há luzes, gente bem-falante
e eu de caneta em punho
escrevente, extravagante,
informe e algo delirante.

Imóvel serei: película, tela, papel,
arranha-céus de vidro, lua, sol,
terra, cimento,
caneta no punho
delirante.