sexta-feira, novembro 08, 2013

Hadopelágica

A água resvala pelo açude
pesa nos oceanos
estáticos como embondeiros
profundos profundos
como as raízes
do salgueiro
em choro desfeito
que desce lento
para o reino do bréu

e do silêncio.

Ofídio

Pertenço a uma serpente
benévola que atravessa
Lisboa mordiscante.

Retirei-me das veias
mas atento sempre ao pulso
à espera de poder
trocá-lo pelo mergulho.


terça-feira, novembro 05, 2013

Vagem

Reabilito os vícios
ou antes rogo-lhes
que me recebam de volta,
que me leiam, ditem e digam.
Exijo a devolução da visão
do deslumbramento melancólico
e uma dentada de cão
no músculo atónito.
Reabilito os vícios
quero-os de volta ser
ervilha vestida da vagem
que me torna vagamente imóvel.
Quando despida
rolarei fecunda até ao coito.

domingo, novembro 03, 2013

Mutações

Talvez os meus olhos
tenham corrompido
o seu papel
julgando.
Hoje só perscrutam
- são o meu corpo todo,
profuso de tentáculos:
anémonas,
tudo palpam,
inventam sensações.

quinta-feira, outubro 31, 2013

Las meninas

O H. e a M. amam-se
e não se falam
O G. tem um gorro
Eu amo e não falo
Amo-os e não confesso
A L. é bela
A noite é a felicidade
Todos querem ser quem são
são-no agora
Todos querem ser quem não são
são-no agora



sábado, outubro 26, 2013

Argerich




"My mother was a goddess",
said the bloody daughter
while her uncertified father
said "bloody
because you love her"
- could have been you
  (it was certainly me
   and, so I hope,
   so will be mine).

[Foto: "Argerich, Bloody Daughter",de Stéphanie Argerich @ doc'13, Cinema São Jorge]



quinta-feira, outubro 24, 2013

André

dos corpos eclipsa-se
a adversidade do atrito
tudo se torna macio
reverberação
rocha húmida
áureo de sol
luarmente prateado
sal fresco
- não há coerências
nem que mencionar
contrários

o que são prédios?
o que são estradas alcatroadas?
ouço água, águias
o gelo canta
tangido por um fio de cabelo
gigante
- quando bate na acqua
esta suspira mater



(forjado para o André, que nasceu ontem, enquanto ouvia Julianna Barwick, no Teatro Municipal Maria Matos)



quarta-feira, outubro 23, 2013

Pas sérieux

D'être poète
c'est d'avoir dix-sept
ans pour la vie
C'est d'être Rimbaud -
si tu peux,
si t'en veux -
pour la vie

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"On n’est pas sérieux, quand on a dix-sept ans", de Arthur Rimbaud

I
On n’est pas sérieux, quand on a dix-sept ans.
Un beau soir, foin des bocks et de la limonade,
Des cafés tapageurs aux lustres éclatants!
On va sous les tilleuls verts de la promenade
Les tilleuls sentent bon dans les bons soirs de juin!
L’air est parfois si doux, qu’on ferme la paupière ;
Le vent chargé de bruits, — la ville n’est pas loin,
A des parfums de vigne et des parfums de bière…

II
Voilà qu’on aperçoit un tout petit chiffon
D’azur sombre, encadré d’une petite branche,
Piqué d’une mauvaise étoile, qui se fond
Avec de doux frissons, petite et toute blanche…
Nuit de juin! Dix-sept ans! — On se laisse griser.
La sève est du champagne et vous monte à la tête…
On divague; on se sent aux lèvres un baiser
Qui palpite là, comme une petite bête…

III
Le cœur fou Robinsonne à travers les romans,
Lorsque, dans la clarté d’un pâle réverbère,
Passe une demoiselle aux petits airs charmants,
Sous l’ombre du faux-col effrayant de son père…
Et, comme elle vous trouve immensément naïf,
Tout en faisant trotter ses petites bottines,
Elle se tourne, alerte et d’un mouvement vif…
Sur vos lèvres alors meurent les cavatines…

IV
Vous êtes amoureux. Loué jusqu’au mois d’août.
Vous êtes amoureux - Vos sonnets la font rire.
Tous vos amis s’en vont, vous êtes mauvais goût.
Puis l’adorée, un soir, a daigné vous écrire…!

Ce soir-là… - vous rentrez aux cafés éclatants,
Vous demandez des bocks ou de la limonade…
On n’est pas sérieux, quand on a dix-sept ans
Et qu’on a des tilleuls verts sur la promenade.

domingo, outubro 20, 2013

Milagre

Enquanto roubo sono à noite
percorro um léxico aleatório
como se fizesse listas de presentes
para entes meus amados:
beijinhos  chupetas   acendalhas
azeitonas  café      búzios vazios
pipetas  cubos de gelo  pimenta
...
O meu ventre
namora-me as ideias
- flores nascem-me
nas entranhas
e isso é glorioso

quinta-feira, outubro 17, 2013

Manhã de sol

Quando ouvi aquelas palavras
- que não repetirei -
atirei-me à sua imunda cabeleira pintada.
Puxei-a numa extensão de dois metros
deixando-a depenada.
Pressionei os polegares
sobre os globos oculares
até sentir o fino invólucro
romper-se e o líquido borrifar-me
as articulações hidráulicas
- o nervo óptico aterrorizado
consciente de que não teria mais
utilidade.
Apertei-lhe o pescoço
mas não a deixei inanimada
cega ou com qualquer mácula
porque tudo isto pensei apenas
com o cérebro a abarrotar de cólera.

Sou civilizada. Em pequena,
ensinaram-me inglês, francês,
a gostar de cinema alemão expressionista
e italiano cinquentista, de Monet
e tudo aquilo me parecia coisa
da pequena-burguesia.

Devia conseguir esganar a fulanita
mas todas "as coisas do céu e da terra",
como lhes chamou Shakespeare
e que valem mais que "vã filosofia"
(o que não é mentira)
me impediram.

Crivei os dentes na carne salgada
os olhos resignaram-se à luz do dia
os músculos redescobriam o esforço
as pernas reconciliavam-se com os passos.
Uma entidade qualquer sussurrava-me ao âmago
"Nada de complicado,
aproveita a atenção do traço".

Na boca um sorriso escarninho.
Os pés seguiram caminho.




terça-feira, outubro 15, 2013

One gift

Cassandra's truth is
somehow black light
Be granted one gift alone
whilst any other is utterly denied
and since you have but black light
you might as well be blind

terça-feira, outubro 08, 2013

Tecelagem

Apostar num descontrolo tranquilo
e acreditar nele sem pressa
aderir por contacto imperceptível
- quase imobilidade.

O sedimento de uma camisa
de noite de teia aracnoideia,
dura-mater, pia-mater
meníngeo
que, nesta lentidão,
é agente numa epopeia
complacente

como uma pálpebra
que embalasse um olho.

É Outono e a chuva parou.

Antes florimos.
Agora, não passamos de
jardineiros da dor.



segunda-feira, outubro 07, 2013

Non Matter

Human things are to feel

Hummingbirds,
like unicorns,
simply do not exist

Human things are human beings
Human beings are feeling things
Still human
Still beings
Still things

Maybe they
too
do not exist



sexta-feira, outubro 04, 2013

Ataraxia

A translucent ocean
of NOTHINGNESS
is healing my heart
This liquid green thing
lingering
drinking my angel[ic] desire
Porcelain and steel bleed
      warming me
- this marble daughter



quinta-feira, outubro 03, 2013

Putrefacção

mundo pousado
sobre uma pedra
de gelo amolecido
baliza incerta
o país é um patim
que rola consoante os petardos
da tríade da prataria
dos donos do visco
e das coisas que cintilam
quando extraídas da mina

bêbedos como medronhos,
seres sem idade
com sexo grevista
e máscara amarrotada
já nem ao nada
se entregam

o que importa que
sempre tenham existido?
agora são às carradas
o planeta dá qual vaca leiteira,
e a economia divertida
enquanto o gelo derrete
nos pólos
e em exorbitantes whiskys


domingo, setembro 29, 2013

Imitação de Anaïs

o entrechocar dos talheres na cozinha
o guindaste içando a viga
o papel branco sobre a secretária
- nada disto eleva os meus pés do chão
  em tremores de terra particulares

quarta-feira, setembro 25, 2013

Casta Diva

Por mais que consertemos este prato
aplicando-lhe gatos, diríamos
que não emitirá mais miados.

Fosse bicho aleijado
seria alvejado
lágrimas chorá-lo-iam
suicidando-se cara abaixo,
enquanto a reverberação do tiro
trepidasse no tímpano.

sábado, julho 27, 2013

Pústula

A perda é uma cócega
insignificante e
pouco incomodativa
Se não lhe tocares,
passar-te-á-sem grande mossa
Mas, se lhe mexeres,
correrás o risco de formares
uma pústula
Purulenta, rebentará, alastrará,
eventualmente, secará,
deixando cicatriz
Não te coces -
há dores que a consciência não suporta
como um cigarro não combusta
num copo de cristal tapado
e ficas ali, a vê-lo
extinguir-se, inoperante
E isso lembra-te a perda
e coças a pústula
e abres a ferida
e acumulas
cicatriz sobre cicatriz.

domingo, julho 21, 2013

Julho sem fogo

Imperial e petiscos com sal,
a lembrar o mar do sul
ou o mar Morto.
É quase Agosto
e não cheira a fogo
que a austeridade consome tudo
- até o oxigénio.
Em S. Bento, Belém
nos largos do Caldas e do Rato,
nada de fumo branco
A Sá da Costa fecha a porta
um popular barbudo
arremessa, da galeria,
um sapato à bancada socialista
- um desperdício, mas o calor
anula o dano.
O país não vai a banhos,
ninguém se vai aos arames
- ainda deve haver comida
para remediados repastos.

Mas eu já passei fome
de comida e, embora
não seja coisa que apeteça,
garanto que, para alguns de nós,
seria imperativo saciar outros apetites
Para o estômago, qualquer migalha
pode ser iguaria.
Para a alma reservo linhas
- da Doris, da Duras e das pautas
de música, que outros
lêem e tocam,
que, para essas, sou analfabeta
Mas continuo desnutrida
Abunda, mais do que o oxigénio,
a fome de cultura.

segunda-feira, julho 08, 2013

Madalena

Saudade apertada
como um abraço no vazio
auto constritivo
resignação complacente
contristada
incógnita sem x
x que não era incógnita
que tinha massa,
volume, corpo, forma,
cabelo brilhante,
pele imaculada
carácter ebúrneo
x que cintilava
que já não é x.
Memória insolúvel.