quarta-feira, dezembro 25, 2013

Lides

Nem nos sonhos
tolerarei engodos
camas de gato
ardis ou logros
que encerrem
como propósito
manter emoções
em andas.
Não existe música cujo ritmo acerte
em fracturantes danças
nem o equilíbrio deve ser desbaratado
em lides de funâmbula
quando se transporta uma celha
com a última água
e na mão esquerda
uma brasa um resquício de chama

É teu o meu regaço
sejas leopardo apoiado
sobre a carne
garras da pata dianteira
esgravatando-me o mamilo
debatendo-se por um esguicho
leitoso ou sanguíneo.
Tudo isto é leal
e inequívoco.

domingo, novembro 17, 2013

Desbravámos os trópicos.

Sobre os trilhos
deitámos os corpos
avaliando a temperatura
do solo
até ao cerne do mundo.

Estugámos o passo sem resposta
numa finisterra de geografia oculta.
Olhos nos olhos
concebemos novo cosmos
com a veleidade de gestar
um universo condicionado.
Saciámos chave e fechadura
a porta não se abriu
e o cosmos que criámos
é mais hermético que o nosso.

quarta-feira, novembro 13, 2013

Vértices

Não me cruzarei
contigo numa viela
Não trocaremos olhares
nem congeminarás,
para o meu itinerário,
trajectórias acidentadas
O sol vai tardar a nascer
e não dispensarei
um segundo de escuridão
nem um milímetro cúbico
de pele a ninguém.

sexta-feira, novembro 08, 2013

Hadopelágica

A água resvala pelo açude
pesa nos oceanos
estáticos como embondeiros
profundos profundos
como as raízes
do salgueiro
em choro desfeito
que desce lento
para o reino do bréu

e do silêncio.

Ofídio

Pertenço a uma serpente
benévola que atravessa
Lisboa mordiscante.

Retirei-me das veias
mas atento sempre ao pulso
à espera de poder
trocá-lo pelo mergulho.


terça-feira, novembro 05, 2013

Vagem

Reabilito os vícios
ou antes rogo-lhes
que me recebam de volta,
que me leiam, ditem e digam.
Exijo a devolução da visão
do deslumbramento melancólico
e uma dentada de cão
no músculo atónito.
Reabilito os vícios
quero-os de volta ser
ervilha vestida da vagem
que me torna vagamente imóvel.
Quando despida
rolarei fecunda até ao coito.

domingo, novembro 03, 2013

Mutações

Talvez os meus olhos
tenham corrompido
o seu papel
julgando.
Hoje só perscrutam
- são o meu corpo todo,
profuso de tentáculos:
anémonas,
tudo palpam,
inventam sensações.

quinta-feira, outubro 31, 2013

Las meninas

O H. e a M. amam-se
e não se falam
O G. tem um gorro
Eu amo e não falo
Amo-os e não confesso
A L. é bela
A noite é a felicidade
Todos querem ser quem são
são-no agora
Todos querem ser quem não são
são-no agora



sábado, outubro 26, 2013

Argerich




"My mother was a goddess",
said the bloody daughter
while her uncertified father
said "bloody
because you love her"
- could have been you
  (it was certainly me
   and, so I hope,
   so will be mine).

[Foto: "Argerich, Bloody Daughter",de Stéphanie Argerich @ doc'13, Cinema São Jorge]



quinta-feira, outubro 24, 2013

André

dos corpos eclipsa-se
a adversidade do atrito
tudo se torna macio
reverberação
rocha húmida
áureo de sol
luarmente prateado
sal fresco
- não há coerências
nem que mencionar
contrários

o que são prédios?
o que são estradas alcatroadas?
ouço água, águias
o gelo canta
tangido por um fio de cabelo
gigante
- quando bate na acqua
esta suspira mater



(forjado para o André, que nasceu ontem, enquanto ouvia Julianna Barwick, no Teatro Municipal Maria Matos)