A família é um leviatã mesquinho e áspero.
Os homens são ditadores
as mulheres emudecem na hora grisalha.
Não que não ame mas convém-lhe o charme discreto da burguesia
o crapô e séries televisivas devoradas em salas de estar estanques.
Quem insistir na deserção do social-presídio
nada acolhedor e pré-requisitivo
terá de prescindir da franquia.
Rasgue-se a continuidade patriarcal gregária
resignada e desagregadora anímica.
Precipitemo-nos na greta da terra
sejamos espermatozoides
trinquemos um óvulo
medremos no ventre nocturno.
A minha linhagem é a dos amigos,
espécie marsupial atípica com cronologia aleatória
solitários com encontros marcados
- gestei-os e eles gestaram-me.
Temos sangue dourado e isso
nem os deuses.
terça-feira, março 08, 2016
quarta-feira, dezembro 09, 2015
5 anos
Há cinco anos, pelas 19 horas, a minha mãe morria. De súbito e de vez, sem falsos alarmes nem degradação lenta. Sei-o pelo
que encontrei no local do óbito: computadores desligados,
apenas a luz junto à saída acesa e uma única cadeira chegada atrás, a que
ficava mais perto da porta. Nela posou, com atabalhoada urgência, o casaco e a
mala para ir aos lavabos. Sei-o. Sabia-o durante os 45 minutos que passei
de olhos presos à luz paralisada na frincha desde a ranhura da caixa do correio a aguardar a chegada da colega ao escritório, uma garagem térrea adaptada. Quando já não
precisava de ser um envelope para franquear a porta e corri a libertar a
luz arauta, vi-a contorcida sobre a cerâmica, olhos esbugalhados
revirados, a boca num esgar de dentes partidos,
um ânus de treva. A ela, a minha mãe. Percebi a intensidade da convulsão que a
atravessou de uma ponta à outra e que tomou o seu tempo, quem sabe quantos segundos,
minutos.
Até aí, o único horror que conheci foi o medo dos homens.
segunda-feira, dezembro 07, 2015
segunda-feira, junho 08, 2015
Violadores de Piauí
Os nossos corações de mercúrio
abominam os campos de Iaru,
os nossos falos repugnam conos
desde o vale ao delta do Nilo,
os dedos comem signos,
aniquilam fêmeas
mas deixam vestigia
até mãos alheias nos remeterem
à balança infalível da psicostasia.
abominam os campos de Iaru,
os nossos falos repugnam conos
desde o vale ao delta do Nilo,
os dedos comem signos,
aniquilam fêmeas
mas deixam vestigia
até mãos alheias nos remeterem
à balança infalível da psicostasia.
terça-feira, outubro 21, 2014
Arcade
Despicable lover
but not for me
ever to play the role
of the outraged virgin.
I had rather say
there is nothing worthier
than the arcade you gaze
- bones gathered on the plate,
greese and saliva all over the place.
segunda-feira, outubro 13, 2014
Aio
É ilusória a greve do palato.
Se não como mas recordo
o teu cheiro encarnado
o que importa a ausência
da seiva do jarro?
Se não como mas recordo
o teu cheiro encarnado
o que importa a ausência
da seiva do jarro?
sexta-feira, setembro 05, 2014
Bijou
Existem coisas absolutamente correctas
como a dose de leite servida na Bijou
com o chá preto de saqueta.
Café que se preze é
mutatis mutandis
uma biblioteca.
como a dose de leite servida na Bijou
com o chá preto de saqueta.
Café que se preze é
mutatis mutandis
uma biblioteca.
quinta-feira, janeiro 09, 2014
paper
My liberty and self are
"There" - it started
But it really had to start
somewhere
Therefore why not
with graffiti or a pen?
Are we here or elsewhere
while I'm scribbling rubbish
on a bloody
piece of paper,
you stupid future
lover?
papel
A minha liberdade e eu somos
"Ali" - começou
se tinha de ser
assim, porque não
com grafite ou caneta?
Estamos aqui algures
enquanto rabisco lixo
num malfadado
pedaço de papel
meu estúpido futuro
amante?
"There" - it started
But it really had to start
somewhere
Therefore why not
with graffiti or a pen?
Are we here or elsewhere
while I'm scribbling rubbish
on a bloody
piece of paper,
you stupid future
lover?
papel
A minha liberdade e eu somos
"Ali" - começou
se tinha de ser
assim, porque não
com grafite ou caneta?
Estamos aqui algures
enquanto rabisco lixo
num malfadado
pedaço de papel
meu estúpido futuro
amante?
domingo, dezembro 29, 2013
Espera de
Aqueles vocábulos chapearam-me
a prata. Sem lirismos deixaram-me
em chumbo blindada
com fechadura corroída
pelo verdete
quando água, e não
os meus próprios unguentos,
penetrou por dentro
a música alheia
tornada tormenta.
a prata. Sem lirismos deixaram-me
em chumbo blindada
com fechadura corroída
pelo verdete
quando água, e não
os meus próprios unguentos,
penetrou por dentro
a música alheia
tornada tormenta.
quarta-feira, dezembro 25, 2013
Lides
Nem nos sonhos
tolerarei engodos
camas de gato
ardis ou logros
que encerrem
como propósito
manter emoções
em andas.
Não existe música cujo ritmo acerte
em fracturantes danças
nem o equilíbrio deve ser desbaratado
em lides de funâmbula
quando se transporta uma celha
com a última água
e na mão esquerda
uma brasa um resquício de chama
É teu o meu regaço
sejas leopardo apoiado
sobre a carne
garras da pata dianteira
esgravatando-me o mamilo
debatendo-se por um esguicho
leitoso ou sanguíneo.
Tudo isto é leal
e inequívoco.
tolerarei engodos
camas de gato
ardis ou logros
que encerrem
como propósito
manter emoções
em andas.
Não existe música cujo ritmo acerte
em fracturantes danças
nem o equilíbrio deve ser desbaratado
em lides de funâmbula
quando se transporta uma celha
com a última água
e na mão esquerda
uma brasa um resquício de chama
É teu o meu regaço
sejas leopardo apoiado
sobre a carne
garras da pata dianteira
esgravatando-me o mamilo
debatendo-se por um esguicho
leitoso ou sanguíneo.
Tudo isto é leal
e inequívoco.
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