quinta-feira, agosto 04, 2016

Detector de metais

Misery loves company
e tu acompanhas-me bem 
como o vinho o Inverno 
           o rádio o trânsito 
           o cigarro a noite.
Digo-te "E se só me restar este sofrimento?".
Digo-te "Sinto-me um pássaro
ao qual tiraram o ar dos ossos".
Dizes-me "Eu também".
Digo-te "Je ne suis qu'une poétesse faible,
pétasse. Putain,
le capital me porte dans ses carnivores de mains".
Dizes-me "Precisas de constância nos afectos".
Mas se a brisa cálida
             a cerveja gélida e
             o riso camarada
me acompanhassem sempre
talvez descartasse cumplicidades de almofada
talvez a minha descendência não tivesse de
suportar a minha boca pétrea 
                os meus olhos ruivos de férreos
                as minhas unhas incrustadas de verdete
talvez lhe desse tudo o que a ti te dou, minha vida,
que convocas tudo o que tenho
de mau e de bom.

Filha querida,
urge que percebas que
só fujo de mim
- deste eu esfacelado e químico
   deste eu desfigurado, delirante moderado
   deste eu trágico 
   ossos pneumáticos esvaziados
   olhos queimados
   sexo a um tempo sobrepovoado e deserto
   fome e sede cretáceos.



Para M.

terça-feira, julho 26, 2016

Maquia

Escusado negá-lo:
és calma calor conforto
alegras-me e
isso mesmo ditará o nosso fim.
Não sou da tranquilidade mas das extesias,
sou fragmentos.
Atento às fotografias e
ao negro escarpado infinito que as intervala
- solo de existência.

Se desobedecesses e contrariasses a parafernália dos costumes
copulando com todos os consensuais bípedes,
talvez me conservasses
- heterogeneamente unos,
incutiríamos mais discórdia no mundo
e nunca sentiríamos fome.

terça-feira, maio 31, 2016

Desenleio

Quando quero desmanchar um nó cego
desembainho um bloco imaculado e desvirgino-o.
Mas o melhor pente que possuo
é viver na casa que era tua.

deixaste um ar mais informado
talhado para a poesis.
As pontas dos meus dedos tornam-se instrumentos cirúrgicos
que amaciam e desembaraçam os mais emaranhados novelos de cabelo
- isto é, escrevo.
Mas ultimamente surpreendo-me
em busca das flores do teu terraço
que não estão onde moro.
Em sobressalto penso:
tenho de aliciar-te ao teu lar de antanho
convidar-te a passear sobre a velha tábua corrida
que acusa a ausência do teu passo,
das tuas plantas de carne e osso,
e por aqui exales um vapor de água teu oriundo que,
queira o Verbo,
retemperará estes ares
geradores de prestidigitadores.

(para a A. e o J-P)

quarta-feira, maio 04, 2016

Verbo

Dissolvia-me a cada palavra proferida
como se citasses as Escrituras e eu fosse
Judas ou um fármaco efervescente.
"Facilmente" era dificuldade da proposição porque
prefiro penumbra embora luza no meio do sistema.
Impiedoso espasmódico,
o estômago suplicava-me propriedade
mas a glote projectava vidro fundido
que a língua arredondava e arremessava
em berlindes nos quais tropeçávamos
- nós, as esferas e glossas em polemos pelo chão.

Dada a aproximação galopante da condição subterrânea
cantemos agora essa infância.

terça-feira, abril 26, 2016

Caxemira

Findo o turismo nocturno,
entramos no bar do Arsenal
perguntamos
«Café, há? Então são
dois e dois
copos d’água.
Um euro e meio cada?»
têmporas coladas, soluçamos hilárias
«Água morna e suja a preço de cerveja gelada».
Sentadas, roemos a madrugada
a falar de 
familiares prazeres dores fome
com a sobriedade própria da precariedade
- nós, roedoras de bolotas
(quais comedores de batatas?).

Prometes que
quando ganhares o prémio da editora omnívora
voltaremos a este lugar
encomendarás uma bica uma meia-de-leite um café americano
pagarás com a nota violeta dispensando a demasia.

Regressamos a casa,
o Terreiro do Paço todo água gelada
a violenta lua nada
sangue por moeda de troca
parquímetros abundantes,
pelo que justo era sermos assaltantes.

segunda-feira, abril 04, 2016

e

Na terceira manhã
da terceira semana
do terceiro mês do ano
quando subia a Pascoal de Melo
vi a falecida melhor amiga
da minha mãe falecida.
Afligiu-me pensá-la
sem a sua companhia
- logo a minha mãe,
uma excelente solitária.
Vi no imenso volume do cabelo
grisalho sem tranças da Zulmira
uma nuvem diluviana
e chovi   logo de seguida.
Da mão pendia-lhe o mundo
num saco de plástico,
que não me recordo de vê-la sem carga.
Os pés não caminhavam sobre saltos,
o que sempre acontecia
mas as coisas já não eram as mesmas.
Logrei alcançar o meu bem-amado fantasma
ultrapassei-o silenciosa.
Era forçoso ver-lhe a cara
pelo que pus a minha à banda
para me deparar
nada mais  nada menos
do que com a da Adília.

quarta-feira, março 16, 2016

d

Adio a hora a que me deito
e já hibernas.
Antecipo o tempo de moldares
ao meu ventre os teus joelhos
assentares nas minhas coxas
os teus pequenos pés cálidos
pousares-me nas faces as tuas mãos desenhadas
pela Josefa Ayala
expirares sobre a minha boca
o hálito sem molares
suspirar-te a adoração que te tenho
e então ronronarmos ambas.
Penso:
prolongo a saudade só para ter mais dela
e menos horas até ao despertar
e assim ter de o retardar.
Penso:
o teu pai sofre mais
porque nem o gato ronrona quando não estás.
Concluo:
não tenho gato.

Então enfrento a repulsa ao sono
que te alenta.

sexta-feira, março 11, 2016

c

O meio-dia corta a todo o comprimento
- nuca e nádegas tombam para trás
  cara e coxas para a frente.
As vísceras expostas primitivas
são anémonas decompostas
bairro de lata que exala salmoura
refeição verminosa macerada
de quem trabalha à jorna.

A morte nunca é prematura ou tardia.
Apenas seja todo do morrente
- indiviso  intacto  inspirado com exemplar comedimento -
o oxigénio nas suas cercanias.
Ninguém parasite a cabeceira
da carnal planta omnívora que,
preparada para devir semente,
nas pétalas pressente os passos
sobre o último vaso.

terça-feira, março 08, 2016

b

A família é um leviatã mesquinho e áspero.
Os homens são ditadores
as mulheres emudecem na hora grisalha.
Não que não ame mas convém-lhe o charme discreto da burguesia
o crapô e séries televisivas devoradas em salas de estar estanques.
Quem insistir na deserção do social-presídio
nada acolhedor e pré-requisitivo
terá de prescindir da franquia.
Rasgue-se a continuidade patriarcal gregária
resignada e desagregadora anímica.
Precipitemo-nos na greta da terra
sejamos espermatozoides
trinquemos um óvulo
logremos medremos
nasçamos de novo.

A minha linhagem é a dos amigos,
espécie marsupial atípica com cronologia aleatória
solitários com encontros marcados
- gerei-os  geraram-me  parimo-nos.
Temos sangue dourado e isso
nem os deuses.

quarta-feira, dezembro 09, 2015

5 anos

Há cinco anos, pelas 19 horas, a minha mãe morria. De súbito e de vez, sem falsos alarmes nem degradação lenta. Sei-o pelo que encontrei no local do óbito: computadores desligados, apenas a luz junto à saída acesa e uma única cadeira chegada atrás, a que ficava mais perto da porta. Nela posou, com atabalhoada urgência, o casaco e a mala para ir aos lavabos. Sei-o. Sabia-o durante os 45 minutos que passei de olhos presos à luz paralisada na frincha desde a ranhura da caixa do correio a aguardar a chegada da colega ao escritório, uma garagem térrea adaptada. Quando já não precisava de ser um envelope para franquear a porta e corri a libertar a luz arauta, vi-a contorcida sobre a cerâmica, olhos esbugalhados revirados, a boca num esgar de dentes partidos, um ânus de treva. A ela, a minha mãe. Percebi a intensidade da convulsão que a atravessou de uma ponta à outra e que tomou o seu tempo, quem sabe quantos segundos, minutos.
Até aí, o único horror que conheci foi o medo dos homens.